Juliana Goulart

Mudar não é fácil, assim como romper com a vida tacanha e etiquetada, como disse Alexandre Morais da Rosa ao prefaciar um dos mais famosos livros de Luis Alberto Warat, “O ofício do mediador”.

Grandes nomes da mediação, exaustivamente, já alertaram que o processo não traz ganhos em termos de qualidade de vida às partes em disputa, uma vez que não resolve a relação afetivo-conflituosa envolvida no embate processual.

Agora, diante da ameaça de uma enxurrada de ações judiciais geradas pela COVID-19, os juristas brasileiros serão desafiados. Que tal nos prepararmos desde já? Vamos incluir a mediação nas nossas práticas?

Business hands joined together teamwork

No Brasil, a travessia da cultura da sentença para a do consenso (ou do diálogo), conforme enuncia Jéssica Gonçalves, tem desafiado principalmente a educação jurídica. Isso porque a educação para a mediação envolve práticas que precisam contar com o ensino de habilidades e competências que foram historicamente negligenciados em favor da análise normativa do litígio.

A Mediação não opera com as pretensões de verdade que encontramos no processo judicial. Ela não possui regras fixas porque é, sobretudo, um processo de interação entre pessoas que conduz à autonomia. Como disse Warat, é preciso “entender de gente”.

As soluções jurídicas obtidas de forma contenciosa são previsíveis e permitem que os juristas se acomodem, não exigindo grandes atividades criativas. Já as soluções tomadas pelo sistema cooperativo da mediação, em razão da perspectiva dos interesses e sentimentos, são dinâmicas e complexas como a vida, razão pela qual o consenso pode vir de lugares inesperados.

Aliás, lidar com o inesperado é algo bem comum na mediação. Não sejamos juristas acomodados e etiquetados. Incentivemos a vida e o inesperado!


Texto publicado em EMais Editora.