Juliana Goulart

Mediar afetos é inscrever o novo na temporalidade, já dizia Luis Alberto Warat. Para o autor de “O ofício do Mediador”, Kairós seria o tempo da mediação, um tempo qualitativo, um tempo da experiência do momento oportuno em que algo especial acontece.

As diferenças de temporalidade são grandes se compararmos mediação e processo judicial. O tempo do processo pode ser representado por Chronos, um tempo de natureza quantitativa, cronológico. Trata-se de um tempo marcado por formalidades, verdades e preclusões.

Um erro cometido no processo judicial pode ser fatal e ameaça o bem estar das partes. Não há como corrigir um ato, salvo raríssimas exceções. A não apresentação de um determinado documento não altera o direito material da parte, mas ela pode ter extinta a ação. Muitas vezes tal documento lhe foi sonegado durante anos.

Já a Mediação trabalha sob a perspectiva do tempo de Kairós, do momento oportuno, no qual sempre é possível introduzir um dado faltante pois esquecimentos não são fatais. O tempo da mediação é um tempo cortês, que promove o bem-estar das partes envolvidas no conflito. No tempo da mediação há espaço e abertura para se tornar protagonista. Na mediação, portanto, o momento oportuno é o instante em que as partes se desarmam e se preparam para o reencontro, como ensina Warat.

Sabe aquele primeiro encontro de amor, em que você prepara um jantar, coloca uma música agradável, um perfume, abre um vinho e acende velas? Esta é a parte do encontro que você pode controlar: você pode se preparar para o encontro; mas não preparar o encontro em si. A dinâmica do encontro, os olhares e sentimentos envolvidos serão inesperados. Assim é também Kairós, o tempo oportuno, o tempo da mediação.

Referências:
WARAT, Luis Alberto. Surfando na pororoca: o ofício do mediador. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2004.


Texto publicado em EMais Editora.